Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Setembro 05 2009

 

UM QUADRO


Um furo na parede... e pus um quadro:
Um rio e alguns montes pela frente...
Alaranjadas nuvens e um poente,
Que observo com demora, extasiado

P'lo rio entra uma ponte em tábua velha
Pregada a uns pilares toscos e escuros
A tela é Natureza, de ares puros,
Reflexos há na água, que se espelha

Parece ser a ponte um velho cais
De barcos que passavam pelo rio;
Pois tem um ar tão triste e tão vazio
Que deve ter perdido os seus sinais...

Um quadro onde demoro o meu olhar
(A calma que apresenta tanto apraz...)
Depois é um instante até sonhar
E ver em todo o mundo a mesma paz.


Joaquim Sustelo
 
 
 


 
publicado por tardesdeoutono às 21:05

Setembro 05 2009

 

 
 
Dia 30 de Agosto de 1999
 
De forma exemplar, o povo Maubere, no dia do referendo, respondeu de forma impressionante a todos aqueles que duvidavam da sua vontade inquebrantável de ser livre, independente.
O mundo ficou comovido e espantado com as imagens de milhares de timorenses que, ignorando o medo, as pressões, exerceram o seu direito de voto.
 
O “sim” à liberdade venceu por maioria esmagadora.
 
Mas a Indonésia não respeitou esse desejo de liberdade e as televisões trouxeram a todos nós imagens de dor e desespero de um martirizado povo que continuava a derramar o seu sangue numa luta desigual.
 
No dia 5 de Setembro de 1999, militares indonésios e milícias por eles armadas e protegidas espalharam o terror em todo o território, destruindo, pilhando e matando. A população fugiu para as montanhas, num percurso de medo e dor, transmitido quase em directo pelas televisões portuguesas. Mais de 250 000 timorenses foram deportados para Timor Ocidental.
 
Tinha começado o “Setembro Negro” de Timor Lorosae.
 
Portugal levantou-se, em peso, numa onda de solidariedade com o Povo Timorense, pedindo a rápida intervenção da comunidade internacional.
 
Os portugueses multiplicaram-se, fizeram o país parar por três minutos. Todos saíram para a rua à hora marcada e ficaram à porta das empresas, das lojas, das casas, em silêncio. Desdobraram-se em vigílias, manifestações, levaram uma flor por Timor, vestiram-se de branco, receberam D. Ximenes Belo, o bispo de Díli, como um herói, telefonaram para a CNN, inundaram o correio electrónico da Casa Branca com e-mails e conseguiram manter Timor no primeiro quarto de hora dos noticiários da maioria dos países. A canção de Luís Represas “Ai Timor” quase se transformou num hino por todos cantado.
.
A violência não parava e Portugal rezava e chorava por Timor, aquele pedaço de terra tão distante mas tão perto dos nossos corações. Era um grito colectivo de revolta, era um país unido numa luta de fraternidade, sem paralelo na História de Portugal. Diferente da também enorme luta que culminou no 25 de Abril, pois a luta por Timor foi apartidária, consensual – foi a vontade de todo um Povo.
 
E as velas, as luzes acesas em cada janela de Portugal proclamavam o nosso amor por Timor, a nossa revolta contra a opressão. Um pano branco em cada varanda, em cada janela era pomba branca num desejo de paz.
 
Portugal chorou, cantou, rezou, gritou e todo o mundo ouviu.
 
Os emigrantes portugueses, principalmente na Europa e nos Estados Unidos da América, mobilizaram-se na mesma onda de solidariedade. Em muitas outras cidades de todo o mundo surgiram manifestações semelhantes de solidariedade com a dor do povo maubere, de revolta pela violência do mais forte sobre o mais fraco e pacífico.
 
Realizou-se o primeiro encontro de um líder timorense, José Ramos-Horta, com um presidente dos EUA, Bill Clinton, na Cimeira da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation). Os contactos efectuados nesta reunião foram o ponto de partida para a criação da INTERFET (International Force in East Timor).
Kofi Annan, Presidente da ONU, autorizou a entrada da INTERFET em Timor e só então os portugueses descansaram.
 
A luta pela independência de Timor foi uma demonstração do que Portugal pode fazer, quando se une, quando se reencontra com os reais e altos valores morais presentes em quase novecentos anos da sua História.
 
MENINO DE TIMOR *
 
Por ti, Timor
O branco da Paz
Vestiu Portugal.
Com a tua dignidade
Povo irmão maubere
Deste sentido real
À solidariedade.
 
Por ti, Timor
Portugal deu as mãos
Com a tua coragem
A rua grandeza
Povo maubere, irmão
Devolveste a alma
À terra portuguesa.
 
E queremos ser
O grito calado
Na boca do menino
Fugindo na noite
Como bicho escorraçado.
 
Esse grito retido
Menino de Timor
Vai ser repetido
Por todos nós
Numa só voz.
 
O teu grito amordaçado
Menino de Timor
Vai chegar a todo o lado
Vai gritar a desumanidade
De chacinar um povo
Por amar a Liberdade.
 
Maria Ivone Vairinho
(in “Livro da Dor e da Esperança”)
 
*Escrito na noite em que a televisão, nesse “Setembro Negro”, nos mostrou a imagem dolorosa de uma criança de cinco, seis anos, caindo num buraco, na sua fuga pela montanha, no silêncio da noite, e levando as mãos à boca para sufocar um grito, que poderia alertar os perseguidores.
Lido, depois, por mim, aos microfones da Rádio Renascença, na onda de solidariedade que galvanizou Portugal.
Maria Ivone Vairinho
publicado por appoetas às 18:09

Setembro 05 2009


Havia poesia no seu rosto.
Uns traços de cigana, ou talvez não;
À sombra dum escaldante mês de Agosto
Servia com sorriso cativante,
No bar, uma bebida refrescante,
No pino do Verão.

Falava português para os fregueses
Mas muito limitado, bem se via...
Só estava em Portugal há cinco meses
Um tempo que de facto era pequeno.
Mas respondia em tom suave, ameno,
No pouco que sabia.

A filha não se deu, desde o começo;
Talvez haja outras coisas que não diz...
Assim, tinha marcado já regresso
Depois de a muito custo ter juntado
Os euros que terá necessitado
Pra voltar ao (seu) país.

Lembrei minha família de emigrantes
(Porém que se deu bem e não voltou; )
Lembrei o mundo cheio de viajantes
Que vão até bem longe ver da vida
Na esp'rança de a viver mais colorida
No longe onde ficou.

Lá foi hoje com a filha... E no adeus
Deixou o bar da vila mais vazio.
Tão tristes achei hoje os olhos seus
E o rosto bem espelhava frustração...

Deixei alguns trocados no balcão
E vi-lhe duas lágrimas a fio.



Joaquim Sustelo
(em CAMINHOS DA VIDA)

publicado por tardesdeoutono às 12:59
editado por mariaivonevairinho às 17:50

Setembro 05 2009

É no jejuar
Que se arregaça
A lentidão dos olhos
Que se acalmam
Os suspiros inférteis

O ponto final
É o princípio da seca
De um rio
Que corria ardente
Mas em saudosa
Massa encefálica
Lenta, triste e doente
Onde a foz
É sempre no abraço ausente

 

Vanda Paz

publicado por Vanda Paz às 11:45
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